Você não sente que, quando está diante de um texto a ser escrito, existem tantas possibilidades de combinações de morfemas, tantas possibilidades sintáticas simples ou aninhadas, idéias e suas redes que ali, no texto ainda não escrito, cabem todos os segredos da vida e todos ou seus sentidos possíveis? E, à medida que ele começa a ser concretizado, vai perdendo o poder do que poderia ser para reduzir-se ao que é? Ou seja, ao escrever estou escolhendo uma das possibilidades, porque a realidade permite apenas isso, uma pequena parcela manifesta da supra-realidade.
Diante dessa infelicidade emerge a proposta de, com o intuito de ‘forçar as idéias a aparecerem mais do que deveriam’ na forma de arte – nesse caso arte literária – meu surrealismo pretende abandonar paradigmas menos interessantes da realidade para dar lugar a outros bem mais belos, isto é, mais necessários. Então, se todo escritor é um tradutor-traidor do mundo das idéias, quero, ao deformar a realidade para torná-la mais real, minimizar essa traição. Como é uma arte que exige do intelecto do apreciador, pois só é finalizada na mente desse, é provável que desavisados não percebam nela qualquer arte, porque, para esses, de fato, não há nenhuma.
Nada há de melhor para revelar a realidade do que a ficção. A mistura precisa entre ficção e realidade tramada com cautela sacode o fenômeno revelando seus fundamentos e, creio, o que há para além…
Não sou um mercenário-literário; não desejaria viver para fins pequenos assim. Se minha arte e o mundo não forem feitos um para o outro, só posso lamentar pelo mundo cujo curso está desgovernado. Se, porém, os leitores perceberem que os textos são mapas para encontrar os tesouros que resolvi compartilhar da vida poderá ocorrer mútua admiração, que seria legítima nesse caso.
Deixe-me fazer um pequeno parêntese… Você já deve ter percebido como sou arrogante, e não há razão para desculpar-me, mas acho que vale a pena explicar a razão disso. Se você conversar comigo, ou escrever para mim, perceberá minha enorme abertura ao diálogo bem-intencionado; verá como não escondo meus “pulos-do-gato”. Mas, inversamente ao que ensina a doutrina cristã creio que a arrogância pode ser uma virtude em certos momentos. Porque a experiência ensina que se quem estiver com a verdade (possível pelos recursos disponíveis) não for arrogante, quem não está, será em seu lugar. Que proveito há em se passar por inútil ou tolo? Essa arrogância, que aparece apenas nos momentos oportunos não é apenas um direito, mas também uma responsabilidade de quem está mais preparado para afirmar o que afirma e que se tire a prova pela ‘argumentocracia’ do diálogo. Resumindo, o mundo não é lugar para Cândidos.
Quanto aos leitores, carecem de pouco convite, são predestinados, como também eu, a fruir essas melhores coisas. Meus textos são para eles meras fotografias de uma índole, mais importantes do que as coisas que, em palavras, podem ser ditas.
Sejam bem-vindos!
Daniel Mazza