“Big Brother Molestadores”
Fevereiro 25, 2008 de Daniel Mazza

O site Family Watchdog rastreia mais de 470 mil molestadores sexuais de todos os tipos nos EUA e disponibiliza para o público suas fotos, o endereço de suas casas e trabalhos. Veja a notícia no G1.
Concordamos que o mal está aí, que não é relativizável, nem deve ser combatido com especulações vazias ou atitudes meramente caridosas. O mal urge e requer solução também urgente. Porém…

Repare a curiosa dinâmica psíquica por detrás da busca por justiça: toda a tensão suportada pelo ‘eu’ a fim de cumprir as leis é imediatamente transmutada em ira contra todo aquele que infringe as mesmas. O importante é perceber que a ira não é necessariamente proporcional ao motivo que a suscitou, pois é o estopim de toda a angústia acumulada por diversos motivos (deduza o que acontece numa sociedade que oferece tantos). E é assim que outras razões – aquém da justiça em si – podem levar as pessoas à desenfreada ‘busca por justiça’ podendo gerar um círculo vicioso de violência, um mal que se realimenta e cresce. Resumindo, bons motivos podem suscitar más atitudes e péssimas conseqüências.
Não é que eu seja totalmente contra justiça popular, mas creio que o foco está equivocado. Se tanto esforço fosse feito em termos de prevenção – em vez de meramente punição – da violência, ouso dizer que o problema já estaria resolvido. Eu sei, você sabe e todo mundo sabe que o confuso problema da violência começa a ser resolvido pela boa educação. Sem ela, os diversos mal-estares sociais crescem como epidemias e juntos vão debilitando a saúde da sociedade e do Estado chamado democrático.
Mas o que vem a ser a boa educação?
Se por um lado essa pergunta é profundamente filosófica implicando num debate mais longo do que permite a urgência do referido problema, por outro já podemos apontar com facilidade o que uma boa educação não é (que vou preferir debater com quem deixar comentários em vez de dizer aqui). O conceito de educação a que venho aludir é bem abrangente, refere-se a toda informação que nos chega e/ou se nos é disponibilizada com uma “visão de mundo” implícita ou pressuposta, ou seja, quase tudo. A Educação é essencialmente uma visão de mundo que deve corresponder ao que a realidade é – e ao que pode vir a ser e ao que deve ser – o mais possível. É da noção de Bem, do que o mundo é e do que pode torna-se que se deduz – relativamente à parte da vida que cabe o “dever” – o que se deve fazer. Assim, o ato ético, obviamente, depende da boa educação.
A insistência em investir mais em remédio que em prevenção do mal sugere que se vê na “justiça” muito mais uma oportunidade de realizar os próprios desejos violentos do que de verdadeiramente extinguir o mal. Veja no filme “Justiça a qualquer preço” como é romantizada a “violência pela justiça” na cultura estadunidense.
Não sei quanto a vocês, mas eu prefiro um mundo bom a um mundo justo. A justiça é bem-vinda só quando pretende prevenir que o mal se alastre, não quero uma vida onde a justiça é um fim em si mesmo.
Creio que publicar fotos de ex-presidiários e o lugar onde moram e trabalham é muito mais fonte de novos problemas do que solução. É bem mais provável que esse ‘Big Brother Crime’ inviabilize a recuperação dos ex-presidiários do que ajude de alguma maneira…