Brincar de viver
Fevereiro 15, 2008 de Daniel Mazza
Nossa razão às vezes nos torna tão infelizes quanto nossas paixões; e pode-se dizer do homem, quando se encontra nesse caso, que é um doente envenenado por seu médico.
(Pensamentos, máximas e anedotas)
Chamfort
Tome cuidado, você está se degenerando por me amar, pode perder-se para sempre. Aviso como se não desejasse justamente isso, como se não quisesse ser objeto de todo o seu carinho. Quando pensa estar se encontrando, quando sente ter descoberto o sentido da vida, quando acredita ter tornado-se independente do mundo, é exatamente quando viciou-se no que jamais poderia controlar.
Sinto-me estranhamente poderoso e, apesar de pressentir verdade no que diz, creio que está enganada quanto ao poder que o poder tem sobre mim. Estou bem, ainda que perdido porque não há para aonde ir – o que se há de fazer da vida? –, então aqui é o melhor lugar para se estar. Ao menos até que me canse de você e tenha que mutilar do coração o pedaço seu.
Quando acaricio assim sua pele e fico hipnotizada por seu olhar minh’alma vê dentro de si a covardia que estou fazendo: não o amo, mas quero que me ame. É assim que funciona uma fêmea, sabe. Ela não ama, faz apenas tudo que pode para ver o homem amá-la e, quando percebe que finalmente isso aconteceu, perde imediatamente o interesse, sente náuseas do destino a seu lado. A mulher só pode gostar para sempre de um homem que jamais conquista por inteiro. Você deve ter isso em mente sempre que, dentre os abraços delas, pensar se deve ou não entregar sua alma, porque não deveria jamais: resistir é o fardo dele e entregar-se, o dela. Nem um nem outro pode escapar do que determina sua natureza – sem pagar por isso –, uma bélica, outra traiçoeira.
Da mesma maneira que uma mulher pode tornar-se feliz simplesmente por ser desejada, o homem o pode simplesmente por ser livre, por caminhar sozinho pelas vielas do mundo e nisso está seu perigo, ó menina, nisso consiste o poder que você não tem. É esse meu olhar-para-adiante e seguir, ainda que à própria destruição com confiança, na sua direção ou noutra que faz suas asinhas tremerem de medo da solidão. É esse meu fanatismo viril e sem objeto, essa minha vontade-de-poder que a ameaça porque me faz transcender involuntariamente, me faz subir e subir e crescer sobre querubins e deuses, abismo adiante.
Verdade. Mas as fadas são diferentes, amor, são mais traiçoeiras porque existem como fim em si mesmo da representação. Como você poderia assegurar-se de que eu, um vírus cósmico, poderia tornar-me de crime em vítima?
Não percebe que seu discurso contraditório revela seus limites e sua estratégia? Estarei bem seguro enquanto não tentar assegurar-me disso. Sigo meu caminho pelo mundo com ou sem você. Caminho sem início, sem fim, sem propósito senão os que invento sozinho, gosto de ver o mundo girar veloz sob meus pés, de brincar de viver. É salvívico, também belo e irônico: brincar assim é tão melhor por você não poder participar…
Traiçoeiro e bélico
Não é verdadeiro isso que você faz como se o masculino fosse necessariamente bélico e o feminino traiçoeiro. Na verdade são dois pólos necessários da relação coexistêncial. A sagacidade é inerente a todo espírito, independentemente de gênero. Da mesma maneira que a água circunda a rocha procurando o caminho mais fácil, um espírito circunscreve o outro nas compartilhadas circunstâncias. Então um em relação ao outro é definido como viril ou malandro e quando essa relação se intensifica são redefinidos como bélico ou traiçoeiro. Como por muito tempo os homens se impuseram às mulheres pela força física, a cultura canonizou o papel de traiçoeira para as mulheres, porque era o que lhes restava.
É curioso que se diga da mulher que foge ao padrão “é masculina” e do homem “é feminino” como se as características fossem inerentes ao gênero. Se, inerentes, fossem, seria impossível desobedecê-las: se se pode desobedecer a natureza, então não é natureza, oras! É cultura ou mania ou sei lá… Não digo que os espíritos do homem e da mulher não tenham profundas diferenças, mas que certamente essas não são definidas por estereótipos assim.
Não me comprometi a dizer verdades, não é? Apenas a contar histórias e conduzi-lo pelo meu mundo… Nosso diálogo filosófico é bônus. Você devia se cansar de estragar a brincadeira! Rsrsr
Que você é traiçoeira é um fado do qual não me deixa esquecer. Parece uma característica inerente à sensualidade das fadas cuja única fonte de motivação é o engano. O que me intriga não é sua essência, mas sim o fato de estar me revelando o íntimo dela. Porque é paradoxal que algum mentiroso se confesse como tal…