Era uma vez… a Gênese do caos
Janeiro 6, 2008 de Daniel Mazza

O jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão.
Benjamin Franklin
Era uma vez, um deus curioso chamado Teo. Ele, como todos os demais, vivia na taverna, naquela eterna bebedeira, jogatina e sacanagem. Mas sua tendência curiosa começou a aguçar-se ao longo dos séculos, então entre uma jogada e outra, entre um gole e outro ou uma safadeza e outra ouvia histórias com mais atenção que o usual.
Ele percebeu que da infinita repetição dos ritos de prazer a única coisa que mudava eram as histórias e com o tempo, elas tornaram-se seu maior objeto de satisfação. Teo ouvia toda sorte de histórias, desde lendas de heróis e histórias sem sentido a contos de fadas, e preferia tragédias e comédias.
Curiosamente seu passatempo excêntrico se alastrou tornando-se febre no Céu. Teo, percebendo a repercussão real e o papel transcendente da ficção resolveu organizar um torneio de contos valendo bebidas.
Organizaram em roda e, um a um diante do balcão contava uma história original e a que mais agradava a corja recebia o éter. Como em todo o jogo, as apostas foram subindo e o éter tornou-se menor das pagas, o que realmente agitava o pessoal era a chamada “aposta de representação”. Consistia, no caso de haver perdido a partida anterior participar como personagem da história seguinte. Como todos os poderes estavam à disposição da turma essa representação envolvia uma suspensão temporária do caráter divino do sujeito participando verdadeiramente daquele conto, ele esquecia haver sido um deus, haver tido poderes haver possuído tudo quanto quisesse à sua disposição para entregar-se à interpretação perfeita.
Teo, por conhecer mais histórias e ser curioso a mais tempo costumava ganhar a maioria dos concursos. Certa noite, após vencer os companheiros propôs que todos fossem personagens de sua história e além de personagens, fossem autores…
Era uma vez, disse Cronos, um Universo trágico que existiu desde sempre e existirá eternamente.
Zeus: o Universo é tão grande quando podemos imaginar, um lugar bem vazio cuja matéria ocupa uma parte ínfima dele. Há alguns lugares habitados, mas não são muitos, nem são o centro de nada, a vida está perdida no espaço-sem-fim. Para não termos de definir o que acontece em cada instante deve haver leis gerais que rejam o cosmos por padrões.
Jeová: mas, ainda assim, há coisas imprevisíveis e quanto à vida, façamos à nossa imagem e semelhança.
Brahma: a vida surge lentamente com muito esforço.
Vishnu: a vida compete entre si pela sobrevivência.
Shiva: mas um dia os viventes morrem de qualquer maneira.
Lúcifer: a vida deseja sempre mais do que pode ter.
Jesus: as pessoas se sentem angustiadas e carentes de salvação sobrenatural por um ser invisível para não acabar num inferno invisível criado por um Deus amoroso por causa de um suposto pecado original que eles nem cometeram! Eles…
Shiva: pega leve, cara… Jesus não sabe brincar! Ele não pode participar dessas coisas…
Lúcifer: eu tinha pensado nisso antes, mas nem falei porque achei que já era muita apelação.
Jesus: Posso terminar? Obrigado. Eles não são salvos por serem bons ou maus, mas por crerem ou não em mim.
Zeus: não, aí não. Se essa valer eu e minha turma saímos do jogo.
Lúcifer: deixa, eu vou pregar ele no pau do jeito que ele gosta.
Jeová: haverá um povo que se sente melhor que os outros e que vai ficar com todo o dinheiro.
Lúcifer: aí, mais um! Eles têm essa fixação… Nunca ouviram falar de igualdade. São fominhas, é tudo pra eles. Sempre tem uns bonzinhos escolhidos deles e o resto é mau!
Apolo: os viventes não nascem cientes da história que participam, mas aprendem coisas a partir do que lhes aparece, do pensamento sobre o que aparece e do autoconhecimento.
Eros: apesar de competirem entre si, existe o amor que torna essa tragédia em comédia.
Afrodite: Mas para que o amor não vença o caos e acabe a história não deve jamais ser correspondido senão por breves momentos. O amor é diferente de tudo, faz da pessoa a melhor e pior coisa do Universo, divino e infernal.
Jesus: ah, a “deusa do amor”, mas é uma despeitada mesmo!
Afrodite: não fica assim, eu deixo você ser a deusa do amor também…
Vishnu: fiquem quietas, é a minha vez. Deixa-me ajeitar isso. Quando a vida atingir certo nível de conhecimento vai acreditar em deuses, mas ainda que venha saber como tudo começou nunca acreditará que foi de forma, assim, tão estúpida.
Alá: a gente pode disfarçar fazendo-os adorar uma coisa ainda mais estúpida, por exemplo um animal qualquer.
Lúcifer: mas, no fundo, suspeitarão… Peraí falta mais um do trio-ternura, cadê? É o puxa-saco.
Espírito Santo: E eu vou levar toda honra e toda a glória ao pai Jeová. E estarei sempre aí para fazer tudo que o filho e o pai quiserem.
Brahma: sem comentários… Que tal todos nós interpretarmos cada vida alternadamente? Tipo RPG.
Zeus: Eu começo mestrando. Certa vez, estavam os homens na taverna, assim como nós, contando histórias, mas eles pensaram ser deuses contando histórias fictícias.
Teo: Ora, ‘eles’ somos nós!
E nesse instante tudo se tornou definitivamente real e eles jamais acreditaram que já foram deuses contando histórias… e o mundo seguiu sem rumo.
Daniel Mazza