A morte
Janeiro 3, 2008 de Daniel Mazza
Se não se espera, não se encontra o inesperado.
Heráclito
Afinal, fada, o que a morte é?
Aquilo que geralmente se teme perder na morte é justamente o que subsiste: o desejo, porque é do Mundo, não do homem. E tudo que arrastava à infelicidade se vai e já vai tarde… Veja como a temida morte parece quase uma bênção desse ponto. O único verdadeiro pesar do final humano é o desperdício de sua memória, porque esquecer é morrer de verdade. O indivíduo e sua parte do Belo residem na memória íntima: nos porquês pessoais, na história de suas decisões, nos desejos preferidos e preteridos, nas belezas do cuidado de si, cuidado, esse, não compartilhado pelo Cosmos que há de desmanchar a trama pessoal para tramar seus próprios fins.
A memória do Cosmos é arquetípica, habita as consciências sem nelas residir.O Cosmos, dirigido pelo Logos, gosta de regenerar a vida a partir do nada a cada geração guardando apenas o que lhe convém nos referidos arquétipos (novos e ancestrais) – seres meio ideais, meio reais –, é através deles que a Natureza engana o indivíduo fazendo com que, ao procurar seus próprios fins, sirva aos dela. Cabe a cada um cuidar de si porque o Mundo cuida das coisas do Mundo e o homem está perdido no organismo das deidades, nas engrenagens do destino e nos labirintos do Belo no ego.
Oh! homem, sempre habitado por belezas maiores que ele – capaz de compreender e desejar o infinito – está condenado a nunca possuí-las, que diabo cruel arbitrou isso? Contra esse mal, a fim de ver coisas que só aparecem através de outras, no nível do indivíduo a memória é o primeiro corpo da alma, é seu lugar-real, a nível coletivo é o mais alto bem da humanidade. É, aliada ao intelecto, seu instrumento para libertar-se de dívidas para com deuses – que também estão sempre devendo.
Das coisas essenciais à vida boa de homem – às quais à maioria não convém chamar “bens”, pois não as possui, mas participa – eis como o bem mnemônico posiciona-se. De alto a baixo: o desejo que é o acesso (mediato e imediato) ao Belo; a sensibilidade, que é o acesso a alguns seres que tem acesso ao homem; a razão, que é o poder de articular seres (que se divide em poder de perceber – quando unido à memória – e lidar com – quando unido ao desejo – umas coisas através de outras); a memória que é o poder de guardar o caminho até uma coisa noutra; e, por fim, fora da escala, a maturidade, poder de articular conjuntamente os poderes. Abaixo dessa esfera estão os bens comuns, os quais guardam seu valor a no maior bem: a própria memória, o único ‘bem’ espiritual no sentido estrito. Como é sua essência, o homem é obrigado a usar seus poderes em cada circunstância, não pode escapar do mundo, é a lei que a Natureza arbitrou para garantir a tirania.
Enquanto na morte o desejo subsiste, o indivíduo desejante morre e não se pode fazer figura precisa da morte porquanto morte é justamente ausência dela. Se fosse possível guardar toda a memória na arte… seria impossível morrer. Mas perceba que mesmo a arte tem um caráter arquetípico, se não ninguém aceitaria o indivíduo que nela há. O homem está só, mesmo entre iguais! Se fosse possível resgatar a memória completa, será que alguém desejaria conhecê-la? Porque ao conhecer precisamente o outro, torna-se o outro. Torna-se culpado de seus crimes, atormentado por suas angústias, cativo dos mesmos vícios… Talvez a natureza esteja certa em sua economia mnemônica. Bênção maldita a lembrança de uma vida pobre assim, vida torpe, má. O homem é um mal necessário da Natureza, faz seu trabalho sujo e, por fim, morre para lavar o Mundo de algo tão medonho. O homem teme os mortos à noite, os fantasmas na treva, mas não devia temer, pois é o mais assustador de todos eles. Tão digno de pena e de amor é esse ser como um cão feio, porém amado. O homem rosna e odeia o outro homem com razão, ele sabe muito bem o que o homem é.
Veja como meus sentimentos por ele oscilam, bem como o próprio homem oscila entre divino e infernal. Que é isso, ó homem?! Esse é meu objeto de espanto contigo, bicho-humano, e do meu amor também.
Não quero morrer, meu amor. Desejaria viver todos os dias, não alguns.
Quero ser cruel e dizer: quanto mais te aproximas da morte, mais me amas! Porque não há escolha, só eu posso e quero entendê-lo, guardar sua memória sem perdas porque não morrerei, nem minhas lembranças, jamais. Amor de fada é cruel quando verdadeiro, se fosse sempre afável seria para feri-lo, de uma vez, ao final. Há certeza da honestidade desse amor.Mas quero ser carinhosa e dizer: não morrerás porquanto também te amo. É tão estranho amar assim, não acha? Desigual…
Não é. Torno sua eternidade vazia um espetáculo, sabemos disso, não sou negociável. Só eu tolero que me seduza a seus traiçoeiros mistérios. E se viver tornar-se impossível, por dor ou tédio, ah! Phenômena, posso a qualquer instante largar-me, despencar-me esquecimento a dentro. Ao menos aos humanos os deuses foram caridosos em conceder meios e coragem para sucumbir do Mundo para além. E não me venha torcer em argumentos vãos a íntima verdade, não seria por você.
Perdoe a galhofa, Tropos, conhece meu humor cruel.
Também sou assim, tenho curiosidade pela miséria, disposição para rodear a dor exaustivamente e rir. E é por isso que ‘te gosto’, menina-fada, minha vítima. É por isso que dou ouvidos à sua solidão. Lá dentro da voz, no tom de cada sílaba doi. Dói existir só, porque entre fadas, entre exércitos e ordas de fadas não há uma amiga sequer; são, na melhor das hipóteses, cúmplices. Também não há amor, os anjos já estão precavidos contra seu time. Você quer, meu amor, alguém que morra com seus segredos e eu sou o único mortal que atravessou daquele mundo para esse, portanto você me ama porque não tem escolha.
Ora… eu não tinha visto isso em mim; muito bom, rapaz. Que coisa!
Conta mais um conto, fada mentirosa, me distraia.
Era uma vez dois irmãos gêmeos. Um nasceu, cresceu, viveu e morreu sem ninguém ouvir falar. O outro, pior, sem ninguém de importar.
Babaca.